Energia

Os impactes das alterações climáticas foram examinados para a procura e a oferta de energia, térmica e elétrica. Surge, em primeiro lugar, a questão da procura de energia ser sensível ao clima. O impacte é positivo para o aquecimento de águas, uma vez que, aumentando a temperatura da água de abastecimentos, diminui a elevação de temperatura requerida para atingir uma certa temperatura-alvo.
Também a elevação da temperatura ambiente leva a uma redução das necessidades de aquecimento e um aumento das necessidades de arrefecimento em edifícios, que podem ser satisfeitas via ar condicionado (elétrico), com um balanço anual que depende muito do tipo de edifício e da sua localização. É menos evidente o impacte do clima noutros tipos de necessidades de energia, elétrica ou térmica, direta ou indiretamente, até porque os sistemas tecnológicos e a regulamentação evoluem continuamente.


Quanto à oferta de energia, na RAM, a situação é dominada pela insularidade. A RAM depende em cerca de 95% de combustíveis fósseis importados. Embora esta dependência esteja a recuar, representa uma vulnerabilidade fundamental na segurança do abastecimento a partir do exterior, e, depois, no armazenamento e na distribuição dos combustíveis dentro das próprias ilhas. A variabilidade climática pode condicionar a oferta segura e a preço razoável de energia na RAM, designadamente através de eventos extremos: tempestades no oceano que impeçam ou demorem o abastecimento de combustíveis, e cheias, aluviões, inundações, ou fogos que atinjam locais de armazenamento de combustíveis e/ou perturbem o seu transporte dentro das ilhas. No caso do sistema elétrico, a insularidade acrescenta outros problemas: as centrais termoelétricas (duas na Madeira e uma no Porto Santo), além de serem a fonte principal de energia elétrica, são, também, essenciais ao funcionamento da rede elétrica isolada em cada ilha, já que asseguram o controlo de parâmetros do sistema elétrico de forma contínua (frequência, tensão, potência ativa e reativa), fazendo face à variação da produção das centrais, que aproveitam fontes de energia renovável intermitente, e à variação do consumo. No caso da ilha do Porto Santo, a indisponibilidade da central termoelétrica acarreta a indisponibilidade total de energia na rede. No caso da ilha da Madeira, o impacte não seria tão grave, podendo, em princípio, abastecer as zonas de qualidade de serviço I e II, mesmo em situação de paragem da maior central, a da Vitória.




As flutuações de disponibilidade das energias renováveis e da procura de eletricidade são compensadas pelas centrais térmicas, o que torna ainda mais importante conhecer quaisquer vulnerabilidades que possam ter: não apenas as relativas ao abastecimento de combustível, mas também ameaças físicas às instalações, designadamente, eventos extremos que possam resultar em aluviões, deslizamentos e inundações. A questão da elevação paulatina do nível do mar também se põe, dada a localização das centrais junto ao mar.

Quanto aos sistemas de energias renováveis, são sensíveis ao clima pelo próprio facto de transformarem, direta ou indiretamente, a energia proveniente da radiação solar, vento, precipitação, etc.. Há alguma sensibilidade a eventos extremos, mas essencialmente à variabilidade dos recursos renováveis em todas as escalas de tempo, em particular ao nível interanual, sazonal e diário. As oscilações de produção das turbinas eólicas e das instalações fotovoltaicas são exemplos evidentes disto. Contudo, na Madeira, o caso da energia hídrica é o mais importante: as flutuações anuais, mensais e nas sequências de dias sem precipitação têm reflexo direto, embora eventualmente diferido, nos caudais disponíveis para turbinar, uma vez que não existe (atualmente) capacidade significativa de armazenamento de água. Note-se, no entanto, que os sistemas de Fontes de Energia Renováveis (FER) e o próprio sistema energético da RAM estão desenhados e dimensionados para lidar com esta variabilidade, pelo que estão adaptados ao clima atual (vulnerabilidade neutra).

Os impactes climáticos identificados nos sistemas FER são, de uma forma geral, ligeiros, com a exceção, única, mas importante, da hidroeletricidade. O aproveitamento da energia solar poderá beneficiar de um pequeno aumento da disponibilidade de radiação solar. Esse benefício é amplificado pela elevação da temperatura ambiente no caso dos sistemas solares térmicos, pela redução de perdas térmicas e indiretamente, mas de forma muito significativa, pela elevação da temperatura da água de abastecimento, levando a uma oportunidade a longo prazo. Pelo contrário nos sistemas fotovoltaicos, a elevação de temperatura implica a redução de eficiência de conversão, pelo que a vulnerabilidade se mantém neutra.

O aproveitamento do recurso eólico parece ser pouco vulnerável às alterações climáticas. A nível sazonal identifica-se uma redução de velocidade média nos meses de fevereiro, março e agosto, e aumento nos meses de abril e dezembro. Apesar de se preverem perdas no contexto geral das ilhas, são muito pouco significativas, especialmente dentro do contexto do desenvolvimento tecnológico.

A disponibilidade de recursos de biomassa e resíduos florestais depende da produtividade primária, que tenderá a aumentar com o aumento da temperatura e a diminuir com a redução da precipitação. Estima-se, então, que a produtividade aumentará, mas, essencialmente, nas cotas mais elevadas, acima de 600 a 700 metros, onde a distância e o terreno tornam a recolha pouco viável. Assim, as alterações climáticas não parecem vir a resultar, em termos práticos, num aumento do potencial explorável de biomassa. Apenas se pode considerar uma oportunidade para o caso das lenhas para aquecimento de edifícios, mas não para o abastecimento à central de incineração da Meia Serra.

Finalmente, aborda-se a exceção a este panorama de impactes baixos e vulnerabilidade neutra ou, até, de oportunidades, que é a redução de produção de eletricidade pela via hídrica, devido a uma diminuição da precipitação nas zonas elevadas. A redução da disponibilidade de água deverá traduzir-se numa redução global da produção hidroelétrica, em particular, das centrais que aproveitam fluxos em excesso de outras utilizações prioritárias da água, particularmente da água captada em zonas altas. As centrais de primeira queda (Calheta, Fajã da Nogueira, Ribeira da Janela) são vulneráveis do ponto de vista geral do sistema electroprodutor (impacte sistémico).

As demais centrais, que dependem de segundas quedas e caudais excedentes destinados a outros usos, serão diretamente vulneráveis devido à redução dos caudais excedentes. No entanto, os efeitos mais gravosos só surgem no longo prazo, sendo que, já a curto prazo, estão a ser planeadas e construídas bacias de armazenamento de água, integradas em novos aproveitamentos, com vista a reforçar os sistemas adutores de aproveitamento existentes, permitindo tirar partido da potência instalada nessas centrais e aumentar, significativamente, a produção das mesmas. Assim, estima-se que a vulnerabilidade só se torne negativa a longo prazo.


Este é um dos setores cujas medidas de adaptação têm maior potencial de contribuir para a mitigação das alterações climáticas, através da melhoria da eficiência energética, do aproveitamento das fontes de energias renováveis e do aumento da capacidade de armazenamento de energia. Estas medidas já fazem parte da política energética regional e estão expressas nos instrumentos de planeamento energético e instrumentos legislativos, incluindo planos e regulamentos nacionais, planos regionais, como os Plano de Ação para a Energia Sustentável da Ilha da Madeira, do Porto Santo e dos Municípios, para além dos planos de investimento da Empresa de Eletricidade da Madeira, e iniciativas de outras entidades, como a Agência Regional da Energia e Ambiente da RAM.

Adicionalmente às medidas já previstas nos instrumentos de política energética em vigor, e sem prejuízo de outras que possam ser consideradas em interligação com planos de adaptação de outros setores, podem ser consideradas medidas dedicadas ao aumento do conhecimento sobre armazenamento de energia - avaliação mais exaustiva da capacidade potencial de armazenamento de energia hídrica, com vista à construção de um maior número de pequenas albufeiras em altitude, e acompanhamento de tecnologias inovadoras de armazenamento de energia em grandes quantidades, para possível utilização futura na RAM.

Recursos

 Plano de Política Energética da RAM - Ano de referência 2000 (PPERAM, 2000
Panorama histórico e actual, e o planeamento da produção futura de energia a partir de FER

 Planos de Acção para a Energia Sustentável Madeira (2012)

 Empresa de Electricidade da Madeira

Vulnerabilidades

Matrizes de Vulnerabilidade Energia